Em 1875, no tempo da Emigração Italiana, meu bisavô, de família tradicional (Buziari) perdeu o Navio Sírio em Genova, embarcação que viria para o Brasil. Inconformado lançou-se no mar de gôndola com a esposa, seus vinte e um filhos e um filhote de mula. O mais novo, meu avô, ainda se amamentava na bisa e como ela era boa reprodutora, já que a comida era escassa, tinha leite para o resto da família e ainda sobrava para amamentar a mula.
O bisavô na Itália tinha um moinho e ia fazer o mesmo no Brasil. Então trouxe consigo várias polentas enormes para a viagem e dizia: “Polenta e late, sgionfa le culate”. Depois de noventa dias no mar, quase chegando ao destino, foram surpreendidos com uma grande tempestade. Uma gigantesca onda do furioso oceano engoliu a gôndola. Meu avô, na época com apenas três anos, e a mula sobreviveram. Conta ele emocionado, que perdeu toda família, mas que por sorte da mula e do destino, dois dias e duas noites após, chegou em terra firme em cima de uma polenta puxado pela mula, agarrado no rabo.
Já no Brasil, recebeu terra na serra gaúcha, constituiu família e construiu com ajuda da mula um enorme moinho próximo ao Rio Carreiro. Lembram do Moinho Rio Grandense? Para tocar o moinho era necessário água, então meu avô derrubou um pinheiro de 70 m de comprimento, puxou com a mula, cavou a torra e fez o canal. Passados 100 anos a torra apodreceu, mas a água tão acostumada a passar pelo canal nem percebeu a falta da torra e continua até os dias de hoje a tocar o moinho. Está sendo explorado como atração turística um verdadeiro arco-íris muito admirado principalmente nas noites de luar.
Em uma manhã quando meu avô foi trabalhar montado na mula, levou a foice para roçar ao redor do moinho e deixou-a pastando. De repente uma jararaca, lançou a foice afiada, a qual costumava se barbear, bem na orelha da cobra e deu um estouro. A foice rachou rente ao cabo se ergueu e foi em círculos para o lado da mula; chep, chep. chep, chep. A mula se assustou, ergueu a cabeça no lugar errado e na hora errada. Não deu outra: se foi o pescoço, o sangue jorrava da veia artéria, mas o corpo da mula não caiu. O nono, mais que depressa, pegou a cabeça da mula nos braços e chorando igual à criança me chamou: “Néne, me traz cola Tenax, rápido”. Procurei, não achei e gritei: “Nono não tem mais cola Tenax”. Então me respondeu: “Bauco, pega farinha branca e água, faz uma pasta e vem depressa. Fiz o que ele pediu e quando cheguei me deu pena do nono, suava frio, com cor de burro quando foge, chorando desesperado afinal era sua irmã de leite que o tinha salvo quando pequeno, não podia deixá-la morrer. Foi passando a pasta, pegou a cabeça, botou no pescoço, segurou firme, contou até dez, de joelhos olhou para o céu e disse: “Meu Deus, se a fé move montanhas este pescoço há de brotar”. E o milagre aconteceu. Mas, maldita pressa! Grudou com a cabeça virada para cima, dava até dó de ver. Ainda está viva, gorda, bonita, se alimenta de frutos, brotos, com seu paladar apurado aprecia palmito, e com facilidade toma água fresquinha do canal do moinho.
Quando saí de casa o nono me disse: “Essa é a verdadeira história da minha vida, digna de ganhar o festival e a mula é o meu único meio de transporte. Por favor me traz o automóvel novo, aí sim vou poder emprestá-la para Associação dos Produtores de Uva do Rio Grande do Sul para podar os parreirais.
Edgar Maróstica
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